El buque "Esmeralda", símbolo de la impunidad criminal en Chile

 The "Esmeralda" ship, a symbol of criminal impunity in Chile

Porão flutuante


O belo veleiro chileno atrai protestos por onde passa

Leonardo Coutinho

FUENTE: Veja, on line http://veja.abril.com.br/270900/p_063.html
FECHA: 27 de septiembre del 2000


Ancorou na quarta-feira passada no porto do Rio de Janeiro o navio Esmeralda, uma maravilha dos sete mares. Terceiro maior veleiro do mundo - com seus 113 metros de comprimento -, ele navega com 29 velas infladas pelo orgulho do povo do Chile diante da imponência desse barco que pertence à Marinha de seu país desde 1954. Mas o Esmeralda, nos portos por onde passa, atrai, além de olhares de admiração, protestos de grupos ligados à defesa dos direitos humanos porque leva nos porões parte de um capítulo dramático da História chilena. Pelas contas dessas entidades, 112 presos políticos foram torturados a bordo do Esmeralda logo após o golpe do general Augusto Pinochet, em 1973. Um dos casos mais célebres é o do padre anglo-chileno Michael Woodward, que viria a morrer dias após o golpe no Hospital Naval de Valparaíso, depois de `assar por interrogatórios a bordo do navio. O episódio envolvendo Woodward faz parte do processo conduzido pelo juiz espanhol Baltasar Garzón, que pediu a prisão do general Pinochet na Inglaterra, em 1998.

Grupos brasileiros, ao lado de chilenos que vivem no Brasil, fizeram manifestações no Rio e em Salvador, onde a embarcação estava ancorada duas semanas atrás. Apenas nesta viagem, a presença do imponente barco de mastros de 48 metros de altura provocou protestos também nos portos de Quebec, Halifax, New London, Nova York, Baltimore e Norfolk. A Marinha chilena trata essas situações como atos de "chilenos rancorosos" e não discute a hipótese de terem ocorrido torturas a bordo no passado. Mas o relatório Rettig, como ficaram conhecidos os dois volumes que traçaram uma radiografia da violação dos direitos humanos no Chile - e têm importância equivalente ao que foi feito no Brasil pelo trabalho conhecido como Brasil: Nunca Mais -, diz que "a Marinha usou as dependências do veleiro para interrogatórios que, regra geral, incluíam tortura e maus-tratos".

Nos dezenove anos anteriores ao golpe militar no Chile, o "La Dama Blanca", como o barco é conhecido, era uma espécie de embaixada móvel daquele país. Construído pelo governo da Espanha, em 1953, o veleiro foi entregue aos chilenos como parte de pagamento de importações. No dia 11 de setembro de 1973, ele era um dos três navios ancorados em Valparaíso, a 137 quilômetros de Santiago. "Como não havia mais espaço nos poucos quartéis de Valparaíso, o Esmeralda foi usado durante os primeiros dias do golpe como local de interrogatório de autoridades ligadas ao governo deposto", revelou um ex-preso da Escola de Guerra da Marinha, sediada naquela região. Para o cadete Nicolas Wulf, nascido cinco anos depois de o Esmeralda ter sido palco de arbitrariedades, os protestos a que ele e o restante da tripulação de 330 pessoas assistem em cada porto são injustos. "Estamos diante de uma das coisas mais lindas de meu país, mas nos olham como se fôssemos parte desse passado", ele desabafa.



 

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