El buque "Esmeralda", símbolo de la impunidad criminal en Chile

 The "Esmeralda" ship, a symbol of criminal impunity in Chile

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Sangue sagrado mancha as mãos do general

por Frei Betto


FUENTE: Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/ed137/opiniao.htm
FECHA: Semana del 17 de abril de 1999

O Vaticano interveio em favor do general Pinochet, detido em Londres por solicitação da justiça espanhola. Segundo Joaquín Navarro Valls, porta-voz da Santa Sé, a iniciativa diplomática junto ao governo britânico, às vésperas da decisão da Câmara dos Lordes, deu-se "por razões humanitárias".

Sei como funcionam os bastidores da Igreja católica. A cúria romana age por vezes à revelia do papa. O cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado -na hierarquia eclesial equivale a primeiro-ministro-, foi núncio em Santiago do Chile sob a ditadura de Pinochet. Sodano organizou a visita de João Paulo II ao Chile, em 1987. Conseguiu que o papa desse comunhão ao ditador chileno, aparecesse ao lado dele no balcão do palácio de La Moneda -onde o residente Allende, constitucionalmente eleito, foi assassinado por ordem de Pinochet, em 1973- e, mais tarde, remetesse ao general cumprimentos por suas bodas de ouro.

Em Santiago, o núncio Sodano travou amizade com o sacerdote Jorge Medina Estévez, pinochetista confesso. Fez de Medina bispo e, mais tarde, cardeal, logrando que, em 1996, ele fosse transferido para Roma e nomeado presidente da Congregação do Culto Divino. Ao saber que Pinochet havia sido preso em Londres, o cardeal Medina considerou o fato "uma humilhação à soberania chilena" e declarou que rezava diariamente pelo general. Pena que não tenha se lembrado das vítimas da ditadura chilena.

O padre Gerardo Poblete, salesiano, foi morto a pancadas a 12 de setembro de 1973 -dia seguinte ao golpe militar- em Iquique, norte do Chile. No dia seguinte, assassinaram o padre Miguel Woodward, que vivia entre os pobres de Cerro Los Placeres, em Viña del Mar. Morto em Valparaíso após ter sido torturado a bordo de um barco da Marinha, consta no atestado de óbito de Woodward: "anemia aguda massiva generalizada, devido a hemorragia aguda por ruptura dos pulmões, originada por fratura de costelas toráxicas, em conseqüência de acidente casual". Filho de pai inglês e mãe chilena, Woodward nasceu em Valparaíso, em 1932, e terminou os estudos secundários na Inglaterra, onde ingressara no curso de engenharia da Universidade de Londres. Aos 22 anos, entrou para o seminário de Santiago, tornando-se sacerdote.

A 19 de setembro de 1973, executaram em Santiago o padre espanhol Juan Alsina Hourtos. A 25 de outubro de 1974, prenderam o padre Antonio Llidó Mengual e o levaram para o centro de tortura da DINA -a polícia pinochetista- em Ollagüe (calle José Domingo Cañas, 1367), na capital chilena, onde foi seviciado. Depois, transferiram-no para Los Alamos. Nunca mais houve notícias dele. O sacerdote francês André Jarlán Pourcel, assistente da JOC (Juventude Operária Católica), foi assassinado pela repressão pinochetista a 4 de setembro de 1984, em Santiago.

De todos esses casos, chama a atenção o do padre Juan Alsina, morto aos 30 anos. Transferiu-se da Espanha para o Chile em 1968. Dedicou-se a evangelizar os portuários de San Antonio, cerca de 100 km da capital chilena, enquanto trabalhava como enfermeiro no hospital San Juan de Dios. Oito dias após o golpe, detiveram-no em seu local de trabalho. Conduzido ao colégio Barros, que o Exército transformara em local de detenção, logo o retiraram sob ordens do capitão Carávez. Fuzilaram-no na ponte Bulnes, sobre el rio Mapocho. Antes que o crivassem de balas, rogou -segundo relato de um dos soldados que o mataram - que não lhe vendassem os olhos, "porque quero dar a vocês o meu perdão".

Sob a ditadura de Pinochet, morreram cerca de 3.000 pessoas. A Igreja católica não pode incorrer de novo no erro -admitido em 1992- de abençoar os opressores, como fez aos colonizadores, e olvidar as vítimas. Pinochet deve responder por seus crimes perante a humanidade. O Chile é signatário de tratados internacionais contra a tortura e o genocídio. O julgamento do general, em Londres ou Madri, não humilha a soberania chilena. Sua impunidade, sim, humilha a Justiça, viola os direitos humanos e ofende a dignidade do povo chileno.


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Pagina puesta al dia / Updated 15 March 2006     -       Webmaster